Coisas para fazer em São Petersburgo

Fiódor Dostoiévski - " Um paradoxalista "

2020.03.28 04:55 fabio561 Fiódor Dostoiévski - " Um paradoxalista "

“Narremos algumas palavras a respeito da guerra e seus rumores. Conheço um homem que é um paradoxalista. Eu o conheço há muito tempo. Trata-se de uma pessoa obscura possuída por um estranho caráter: nosso paradoxalista é um sonhador. Em algum lugar de minha obra voltarei a falar sobre ele mais detidamente. Mas agora quero rememorar como, há alguns anos, nós discutimos a respeito da guerra. Ele defendeu a guerra em termos gerais e talvez o tenha feito apenas pelo amor ao paradoxo. Afirmo-lhes que nosso paradoxalista é um verdadeiro cidadão; a pessoa mais pacífica e afável que se poderia conhecer na Terra e também em São Petersburgo.
– É algo ultrajante – o paradoxalista começa – dizer que a guerra é o tumor da humanidade. Pelo contrário, trata-se do artifício mais útil. Há apenas um tipo de guerra odioso e verdadeiramente pernicioso: a guerra civil e fratricida. Ela paralisa e obscurece o Estado; ela se prolonga em demasia; ela brutaliza o povo a não mais poder. Mas uma guerra política e internacional apresenta benefícios em todos os aspectos, e por isso ela é absolutamente essencial.
– Espere um momento: uma nação aniquila a outra, e os povos se dispõem à matança mútua – o que há de essencial nisso?
– Tudo é essencial, e no sentido mais elevado. Mas em primeiro lugar, é uma mentira dizer que os povos se dispõem à matança mútua; a chacina nunca domina o imaginário do povo. Pelo contrário, os povos se dispõem a sacrificar as próprias vidas; eis o que domina seu imaginário. E esta é uma questão completamente outra. Não há ideal mais elevado do que o sacrifício da própria vida pela defesa dos irmãos e da pátria. A humanidade não pode viver sem ideais nobres, e chego mesmo a suspeitar que a humanidade ama a guerra precisamente por ela fazer parte de algum nobre ideal. Trata-se de uma necessidade humana.
– Mas será que a humanidade realmente ama a guerra?!
– Claro que ama. Quem se sente deprimido em tempos de guerra? Muito pelo contrário: todos e cada um ficam instigados, os espíritos se elevam, não se notam a apatia e o tédio ordinariamente presentes em tempos de paz. E então, quando a guerra termina, os povos amam relembrá-la, ainda que tenham sido derrotados! Não acredite naqueles que, durante a guerra, meneiam a cabeça e dizem uns aos outros: ‘Que calamidade, a que ponto chegamos’. Estão sendo educados, eis tudo. Na verdade, todos e cada um são tomados por um ânimo festivo. Sabe, há idéias que não se aceitam facilmente. Você será apupado como uma besta-fera e será excomungado e condenado como um reacionário; todos temem tais idéias. Ninguém ousa aclamar a guerra.
– Mas você está falando de nobres ideais e de humanização. Não pode haver nobres ideais sem a guerra? Pelo contrário: em tempos de paz, há muito mais terreno para que nobres ideais floresçam.
– Não, não, não, aí é que você se engana. A nobreza perece durante um longo período de paz, e em seu lugar aparecem o cinismo, a indiferença, o tédio e, sobretudo, um malicioso hábito de escárnio – e tudo isso quase como um ocioso passatempo, sem nenhum objetivo sério. Afirmo categoricamente que um longo período de paz endurece o coração do povo. Durante o interminável período de paz, a balança social sempre pende para o lado do que é estúpido e grosseiro na humanidade, principalmente em direção à riqueza e ao capital. Imediatamente após uma guerra, a honra, a filantropia e o auto-sacrifício são respeitados, valorizados e altamente resguardados; quanto mais a paz se estende, mais tais valores nobres e belos se tornam pálidos e insípidos, até que desapareçam, enquanto todos e cada um estão obsedados pela riqueza e pelo espírito da aquisição. Ao fim e ao cabo, só resta a hipocrisia – a hipocrisia da honra, do auto-sacrifício e do dever; tais coisas continuarão a ser respeitadas, a despeito de todo o cinismo, mas apenas retoricamente, através de belas palavras. Não haverá honra genuína, apenas as máximas vazias permanecerão. Quando a honra se torna uma máxima, ela morre. Uma paz prolongada produz apatia, ideais medíocres, depravação e um arrefecimento das paixões. Os prazeres não se mostram refinados e se tornam mais e mais envilecidos. A riqueza crua não se regozija com a nobreza, já que demanda prazeres imediatos e rasteiros, i.e., a satisfação mais direta dos clamores da carne. Os prazeres se tornam carnívoros. A sensualidade evoca a luxúria, e a luxúria é sempre cruel. Você não pode negar tudo isso, porque não há como negar o fato principal: durante uma paz prolongada, a balança social pende para a riqueza crua ao fim e ao cabo.
– Mas e quanto à ciência e às artes – será que elas podem florescer durante os tempos de guerra? E aqui estamos diante de nobres e grandiosos ideais.
– Ah, mas eis a jogada que me faz dizer a você: xeque-mate! A ciência e as artes florescem sobretudo no imediato pós-guerra. A guerra as renova; a guerra estimula e fortalece o pensamento e lhe dá ímpeto. Mas uma paz interminável arrefecerá até mesmo a ciência. Não há dúvida de que a busca da ciência demanda uma certa nobreza, até mesmo a abnegação. Mas poderiam muitos desses cientistas sobreviver à pestilência da paz? A falsa honra, o amor-próprio e a sensualidade os apanharão também. Tente lidar com um sentimento como a inveja, por exemplo; a inveja é crua e vulgar, mas ela também se inoculará no nobre coração de um cientista. Ele também quererá tomar assento em meio ao glamour e à prosperidade generalizada. Comparado ao triunfo da riqueza, que pode significar o triunfo de alguns cientistas, a menos que se trate de algo sensacional como a descoberta do planeta Netuno, por exemplo? Agora me diga: haverá muitos remanescentes para a devoção verdadeira à humilde causa? Pelo contrário, haverá o desejo pela fama, e então o charlatanismo invadirá a ciência; haverá a busca pelo sensacionalismo, e o utilitarismo pairará soberano, porque haverá um desejo incontrolável pela riqueza. O mesmo sucederá à arte: a mesma busca por sensacionalismo. Idéias simples, claras, nobres e valorosas não estarão em moda: algo muito mais terra-a-terra será demandado; simulacros de paixões estarão na ordem do dia. Pouco a pouco, o senso de medida e harmonia se perderá; paixões e sentimentos sórdidos virão à tona – eis o sentido da elevação dos sentimentos que, na verdade, só levam à vulgarização. A arte inevitavelmente sucumbirá ao fim de uma paz prolongada. Se a guerra nunca houvesse existido em nosso planeta, a arte teria sido totalmente extinta. Todas as grandes idéias artísticas são providas pela guerra e pela luta. Pense na tragédia, olhe para as estátuas: aqui está o Horácio de Cornélio; lá está o Apolo de Belvedere sobrepujando um monstro...
– E quanto às madonas, e quanto à cristandade?
– A própria cristandade admite o fato das guerras e das profecias que dizem que a espada não virá até o Juízo Final: eis algo verdadeiramente notável. Ah, não há dúvida de que a cristandade, em termos elevados e morais, rejeita a guerra e prega o amor mútuo. Eu mesmo serei o primeiro a me unir ao júbilo quando as espadas forem relegadas aos charcos. Mas a questão é: quando isso irá acontecer? E seria útil relegar as espadas aos charcos na atualidade? A paz atual será sempre e em todo os lugares pior do que a guerra, a ponto de ser imoral apoiar a paz. Não há nada que a torne digna de ser valorizada e preservada; é vulgar e vergonhoso preservar a paz. A riqueza e a vulgaridade dão à luz a indolência, e a indolência faz nascer escravos. A fim de manter os escravos em estado servil, é preciso eliminar o livre arbítrio e a oportunidade de evolução, já que não se pode abrir mão da necessidade de escravos, ainda que se trate do cidadão mais humano entre todos. Eu também noto que, durante um período de paz, a covardia e a desonestidade criam raízes. Por natureza, o homem está terrivelmente inclinado à covardia e aos atos vergonhosos – todos e cada um de nós sabemos muito bem disso. Talvez seja por isso que o homem ama tanto a guerra: entrevemos uma cura através da guerra. A guerra expande o amor mútuo e une as nações.
– Ei, espere um pouco: como é que a guerra une as nações, meu Deus?!
– A guerra as obriga ao respeito mútuo. A guerra renova os povos. O amor ao próximo chega ao ápice no campo de batalha. Realmente, é estranho que a guerra faça menos para despertar o ódio do povo do que a paz. De fato, algo que poderia ser considerado uma revolta política em tempos de paz, algum tratado que demandava muito, quiçá uma pressão política, uma requisição arrogantemente expressa – do tipo a que a Rússia foi submetida pela Europa em 1863 –, todas essas coisas despertam o ódio do povo de modo muito mais encarniçado e aberto do que em tempos de guerra. Pensemos ainda uma vez: nós, russos, odiamos os franceses e os ingleses durante a campanha da Criméia? Não, nem um pouco; na verdade, parecíamos nos aproximar cada vez mais deles, quase como se eles tivessem se tornado nossa própria família. Estávamos interessados em ouvir as visões deles sobre a nossa coragem no campo de batalha; nós tratamos os prisioneiros de guerra com enorme generosidade; em tempos de trégua, nossos soldados e oficiais deixaram as posições avançadas e quase abraçaram o inimigo; chegamos a beber vodka juntos. A Rússia se encantou ao ler sobre isso nos jornais, e ainda assim isso não nos impediu de travar uma luta magnífica. Um espírito de cavalheirismo se estabeleceu. E eu nem mesmo trarei à tona as perdas materiais da guerra: todos e cada um conhecem a lei segundo a qual as coisas parecem renascer com um vigor renovado no período pós-guerra. As forças econômicas da nação são estimuladas dez vezes mais do que antes, como se uma nuvem tempestuosa encharcasse a terra com uma chuva torrencial. Todos e cada um, de uma só vez, dão uma mão àqueles que sofreram durante a guerra, enquanto em tempos de paz províncias inteiras morrem de fome antes de nos levantarmos para fazer algo, antes de doarmos alguns míseros rublos.
– Mas o povo não sofre mais do que qualquer outro estrato da população durante a guerra? Quem é que sofre a ruína e suporta as feridas e cicatrizes inevitáveis: o povo ou os nascidos em berço de ouro?
– Talvez você tenha razão a este respeito, mas apenas temporariamente. Ainda assim, o povo ganha muito mais do que perde. É especificamente para o povo que a guerra traz as mais belas e sublimes conseqüências. Diga o que quiser: você pode ser a pessoa mais humana, mas ainda assim você se considerará acima do populacho. Nos dias de hoje, quem é que equipara as almas de acordo com o padrão de Cristo? O padrão é o dinheiro, o poder e a força, e o povo massificado sabe muito bem disso. Não se trata propriamente de inveja; há um certo sentimento opressivo de desigualdade moral que é extremamente doloroso para as pessoas comuns suportarem. Você pode libertá-las ao máximo e escrever e estatuir as leis que escolher, mas a desigualdade não pode ser sustada na sociedade atual. O único remédio é a guerra. A guerra é apenas um paliativo instantâneo, mas ela dá conforto ao povo. A guerra aumenta o moral do povo e o seu senso de amor-próprio e dignidade. A guerra torna todos e cada um iguais durante as batalhas e reconcilia o senhor e o escravo na manifestação mais sublime de dignidade humana – o sacrifício da vida pela causa comum, por todos e cada um, pela pátria. Você acha que as massas, mesmo a massa mais embrutecida de camponeses e mendigos, não sentem a premência de uma demonstração ativa de sentimentos nobres? E como é que a massa pode demonstrar sua nobreza e dignidade humana nos tempos de paz? Nós observamos nobres atos isolados em meio ao povo, mal condescendendo em notá-los, algumas vezes com um sorriso cético, noutras simplesmente não acreditando no que acabamos de ver. E quando nós efetivamente reconhecemos o heroísmo de algum indivíduo isolado, nós fazemos um tal estardalhaço como se se tratasse de algo completamente inusitado; o resultado é que nosso assombro e nosso elogio reverberam o desdém. Tudo isso desaparece em tempos de guerra, quando há a completa igualdade no heroísmo. O sangue aspergido se torna sagrado. Uma nobre proeza compartilhada cria os mais sólidos vínculos entre as classes díspares. O proprietário e o camponês estiveram mais próximos no campo de batalha em 1812 do que na província pacífica de onde vieram. A guerra dá às massas um sentido de auto-respeito, e é por isso que o povo ama a guerra: ele compõe canções sobre ela, e por muitos anos o povo se mostra sedento por estórias e lendas sobre a guerra. O sangue aspergido se torna sagrado! Diga o que quiser, mas a guerra em nossa época é necessária; sem ela o mundo teria entrado em colapso ou, no mínimo, o mundo teria sido transformado em uma espécie de charco lodoso fervilhante pela putrefação...
Eu desisti da discussão, obviamente. Não há sentido em discutir com sonhadores. No entanto, há um fato muito estranho: as pessoas começam a discutir questões que pareciam resolvidas há muito e estavam supostamente destinadas aos arquivos. Tais questões estão sendo exumadas ainda uma vez. E o mais importante é que isso está acontecendo em toda parte”.
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2019.12.10 19:05 JairBolsogato Jovem russo enfrentou o regime com um discurso de resistência formidável na corte corrupta de Putin

O estudante universitário de 21 anos, Yegor Zhukov, foi acusado de "extremismo" por ter postado vídeos no YouTube falando de protestos não-violentos, sua campanha para vereador de Moscow e abordagens sobre o poder político. Há 4 meses atrás ele citou Vladimir Putin como "louco" que vê o poder como um fim em si mesmo, ao contrário dos ativistas como ele que vê como instrumento de ação comum. Em vários de seus vídeos ele tem a bandeira de Gadsden no fundo ("Don't Tread On Me/Não Pise Em Mim").
O promotor de acusação pediu 4 anos de prisão, mas a corte o sentenciou a 3 anos de liberdade condicional devido à repercussão da fala de Zhukov e centenas de pessoas comparecendo em frente à corte. Como parte da punição, ele está proibido de postar na Internet e sua bandeira foi confiscada e destruída.
Aqui está uma tradução do discurso de Zhukov:
“Esta audiência está preocupada principalmente com as palavras e seu significado. Discutimos sentenças específicas, as sutilezas do fraseado, diferentes interpretações possíveis, e espero que tenhamos conseguido mostrar ao honorável tribunal que não sou extremista, nem do ponto de vista da lingüística nem do ponto de vista de senso comum. Mas agora eu gostaria de falar sobre algumas coisas que são mais básicas do que o significado das palavras. Gostaria de falar sobre por que fiz as coisas que fiz, principalmente porque o especialista do tribunal deu sua opinião sobre isso. Eu gostaria de falar sobre meus motivos profundos e verdadeiros. As coisas que me motivaram a assumir a política. As razões pelas quais, entre outras coisas, gravei vídeos para o meu blog.

“Mas primeiro eu quero dizer isso. O estado russo afirma ser o último protetor dos valores tradicionais do mundo. Dizem-nos que o estado dedica muitos recursos para proteger a instituição da família e para o patriotismo. Também nos dizem que o valor tradicional mais importante é a fé cristã. Meritíssimo, acho que isso pode ser uma coisa boa. A ética cristã inclui dois valores que considero centrais para mim. Primeiro, responsabilidade. O cristianismo é baseado na história de uma pessoa que se atreveu a assumir o fardo do mundo. É a história de uma pessoa que aceitou a responsabilidade no maior sentido possível dessa palavra. Em essência, o conceito central da religião cristã é o conceito de responsabilidade individual.

“O segundo valor é o amor. "Ame o seu próximo como a si mesmo" é a sentença mais importante da fé cristã. Amor é confiança, empatia, humanidade, ajuda mútua e cuidado. Uma sociedade construída com esse amor é uma sociedade forte - provavelmente a mais forte de todas as sociedades possíveis.

"Para entender por que fiz o que fiz, tudo o que você precisa fazer é ver como o Estado russo, que orgulhosamente afirma ser um defensor desses valores, na realidade. Antes de falarmos sobre responsabilidade, precisamos considerar qual é a ética de uma pessoa responsável. Quais são as palavras que um indivíduo responsável repete para si mesmo ao longo de sua vida? Penso que estas palavras são: Lembre-se de que seu caminho será difícil, às vezes insuportavelmente. Todos os seus entes queridos morrerão. Todos os seus planos darão errado. Você será traído e abandonado. E você não pode escapar da morte. A vida é sofrimento. Aceite isso. Mas uma vez que você aceita, depois de aceitar a inevitabilidade do sofrimento, você ainda deve aceitar sua cruz e seguir seu sonho, porque, caso contrário, as coisas só piorarão. Seja um exemplo, seja alguém em quem os outros possam confiar. Não obedeça déspotas, lute pela liberdade de corpo e alma e construa um país em que seus filhos possam ser felizes. '

“É realmente isso que nos ensinam? Essa é realmente a ética que as crianças absorvem na escola? Esses são os tipos de heróis que honramos? Não. Nossa sociedade, como atualmente constituída, suprime qualquer possibilidade de desenvolvimento humano. [Menos de] dez por cento dos russos possuem noventa por cento da riqueza do país. Alguns desses indivíduos ricos são, é claro, cidadãos perfeitamente decentes, mas a maior parte dessa riqueza é acumulada não através de trabalho honesto que beneficia a humanidade, mas, claramente, através da corrupção.

“Uma barreira impenetrável divide nossa sociedade em duas. Todo o dinheiro está concentrado no topo e ninguém lá em cima vai deixar passar. Tudo o que resta na parte inferior - e isso não é exagero - é desespero. Sabendo que eles não têm nada a esperar, que, por mais que tentem, não podem trazer felicidade a si mesmos ou a suas famílias, os homens russos atacam suas esposas ou bebem até a morte ou se enforcam. A Rússia tem a [segunda] maior taxa de suicídio do mundo entre os homens. Como resultado, um terço de todas as famílias russas são mães solteiras com seus filhos. Gostaria de saber: É assim que estamos protegendo a instituição da família?

“Miron Fyodorov [um artista de rap que se apresenta sob o nome Oxxxymiron], que participou de muitas das minhas audiências na corte, observou que o álcool é mais barato que um livro em russo. O estado está pressionando os russos a fazer uma escolha entre responsabilidade e irresponsabilidade, a favor deste último.

"Agora eu gostaria de falar sobre amor. O amor é impossível na falta de confiança. Confiança real é formada por ação comum. Ação comum é uma raridade em um país onde poucas pessoas se sentem responsáveis. E onde a ação comum ocorre, os guardiões do estado imediatamente a vêem como uma ameaça. Não importa o que você faz - esteja ajudando os presos, defendendo os direitos humanos, lutando pelo meio ambiente - mais cedo ou mais tarde você será considerado um 'agente estrangeiro' ou será simplesmente trancafiado. A mensagem do estado é clara: "Volte para a sua toca e não participe de uma ação comum. Se virmos mais de duas pessoas juntas na rua, prenderemos você por protestar. Se você trabalhar em conjunto em questões sociais, atribuiremos a você o status de "agente estrangeiro". De onde vem a confiança em um país como esse - e onde o amor pode crescer? Não estou falando de amor romântico, mas do amor da humanidade.

“A única política social que o estado russo segue consistentemente é a política de atomização. O estado nos desumaniza nos olhos um do outro. Aos olhos do estado, paramos de ser humanos há muito tempo. Caso contrário, por que trataria seus cidadãos do jeito que é? Por que pontua seu tratamento das pessoas através de espancamentos diários, tortura na prisão, inação em face de uma epidemia de HIV, o fechamento de escolas e hospitais, e assim por diante?

"Vamos nos olhar no espelho. Deixamos que isso seja feito conosco e em que nos tornamos? Nós nos tornamos uma nação que desaprendeu responsabilidades. Nós nos tornamos uma nação que desaprendeu o amor. Mais de duzentos anos atrás, Alexander Radishchev [amplamente considerado como o primeiro escritor político russo], enquanto viajava de São Petersburgo a Moscou, escreveu: ‘Olhei em volta de mim e minha alma foi ferida pelo sofrimento humano. Eu então olhei dentro de mim e vi que os problemas do homem vinham do próprio homem. 'Onde estão esses tipos de pessoas hoje? Onde estão as pessoas cujos corações doem tanto pelo que está acontecendo em nosso país? Por que quase nenhuma pessoa assim restou?

“Acontece que a única instituição tradicional que o Estado russo realmente respeita e protege é a instituição da autocracia. A autocracia visa destruir qualquer pessoa que realmente queira trabalhar em benefício da pátria, que não tenha medo de amar e assumir responsabilidades. Como resultado, nossos cidadãos sofredores tiveram que aprender que a iniciativa será punida, que o chefe está sempre certo apenas porque ele é o chefe, que a felicidade pode estar ao seu alcance - mas não para eles. E tendo aprendido isso, eles gradualmente começaram a desaparecer. Segundo a autoridade estatística do estado, os russos estão desaparecendo lentamente, à taxa de quatrocentas mil pessoas por ano. [As mortes excederam os nascimentos em quase duzentos mil nos primeiros seis meses de 2019.] Você não pode ver as pessoas por trás das estatísticas. Mas tente vê-los! Estas são as pessoas que se bebem até a morte por desamparo, as pessoas morrendo de frio em hospitais sem aquecimento, as pessoas assassinadas por outros e as que se matam. Essas são pessoas. Pessoas como você e eu.

"A essa altura, provavelmente já está claro por que fiz o que fiz. Eu realmente quero ver essas duas qualidades - responsabilidade e amor - em meus concidadãos. Responsabilidade por si mesmo, pelos vizinhos e pelo país. Este meu desejo, Meritíssimo, é outra razão pela qual eu não poderia ter chamado por violência. A violência gera impunidade, o que gera irresponsabilidade. Da mesma forma, a violência não suporta amor. Ainda assim, apesar de todos os obstáculos, não tenho dúvidas de que meu desejo se realizará. Estou olhando para o futuro, além do horizonte de anos, e vejo uma Rússia cheia de pessoas responsáveis ​​e amorosas. Será um lugar verdadeiramente feliz. Quero que todos imaginem a Rússia assim. E espero que esta imagem possa guiá-lo em seu trabalho, como me levou no meu.

“Concluindo, gostaria de afirmar que, se o tribunal decidir que essas palavras são ditas por um criminoso verdadeiramente perigoso, os próximos anos da minha vida serão marcados por privações e adversidades. Mas olho para as pessoas [que foram presas na última onda de prisões de ativistas] e vejo sorrisos em seus rostos. Duas pessoas que conheci brevemente durante a prisão preventiva, Lyosha Minyaylo e Danya Konon, nunca reclamaram. Vou tentar seguir o exemplo deles. Esforçarei-me por ter alegria por ter essa chance - a chance de ser testado em nome de valores que considero importantes. No final, Meritíssimo, quanto mais assustador for o meu futuro, mais amplo será o sorriso com o qual olho para ele. Obrigado."

https://www.newyorker.com/news/our-columnists/a-powerful-statement-of-resistance-from-a-college-student-on-trial-in-moscow
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2019.12.10 05:19 JairBolsogato Jovem russo enfrentou o regime com um discurso formidável de resistência na corte corrupta de Putin

O estudante universitário de 21 anos, Yegor Zhukov, foi acusado de "extremismo" por ter postado vídeos no YouTube falando de protestos não-violentos, sua campanha para vereador de Moscow e abordagens sobre o poder político. Há 4 meses atrás ele citou Vladimir Putin como "louco" que vê o poder como um fim em si mesmo, ao contrário dos ativistas como ele que vê como instrumento de ação comum. Em vários de seus vídeos ele tem a bandeira de Gadsden no fundo ("Don't Tread On Me/Não Pise Em Mim").
O promotor de acusação pediu 4 anos de prisão, mas a corte o sentenciou a 3 anos de liberdade condicional devido à repercussão da fala de Zhukov e centenas de pessoas comparecendo em frente à corte. Como parte da punição, ele está proibido de postar na Internet e sua bandeira foi confiscada e destruída.
Aqui está uma tradução do discurso de Zhukov:
“Esta audiência está preocupada principalmente com as palavras e seu significado. Discutimos sentenças específicas, as sutilezas do fraseado, diferentes interpretações possíveis, e espero que tenhamos conseguido mostrar ao honorável tribunal que não sou extremista, nem do ponto de vista da lingüística nem do ponto de vista de senso comum. Mas agora eu gostaria de falar sobre algumas coisas que são mais básicas do que o significado das palavras. Gostaria de falar sobre por que fiz as coisas que fiz, principalmente porque o especialista do tribunal deu sua opinião sobre isso. Eu gostaria de falar sobre meus motivos profundos e verdadeiros. As coisas que me motivaram a assumir a política. As razões pelas quais, entre outras coisas, gravei vídeos para o meu blog.

“Mas primeiro eu quero dizer isso. O estado russo afirma ser o último protetor dos valores tradicionais do mundo. Dizem-nos que o estado dedica muitos recursos para proteger a instituição da família e para o patriotismo. Também nos dizem que o valor tradicional mais importante é a fé cristã. Meritíssimo, acho que isso pode ser uma coisa boa. A ética cristã inclui dois valores que considero centrais para mim. Primeiro, responsabilidade. O cristianismo é baseado na história de uma pessoa que se atreveu a assumir o fardo do mundo. É a história de uma pessoa que aceitou a responsabilidade no maior sentido possível dessa palavra. Em essência, o conceito central da religião cristã é o conceito de responsabilidade individual.

“O segundo valor é o amor. "Ame o seu próximo como a si mesmo" é a sentença mais importante da fé cristã. Amor é confiança, empatia, humanidade, ajuda mútua e cuidado. Uma sociedade construída com esse amor é uma sociedade forte - provavelmente a mais forte de todas as sociedades possíveis.

"Para entender por que fiz o que fiz, tudo o que você precisa fazer é ver como o Estado russo, que orgulhosamente afirma ser um defensor desses valores, na realidade. Antes de falarmos sobre responsabilidade, precisamos considerar qual é a ética de uma pessoa responsável. Quais são as palavras que um indivíduo responsável repete para si mesmo ao longo de sua vida? Penso que estas palavras são: Lembre-se de que seu caminho será difícil, às vezes insuportavelmente. Todos os seus entes queridos morrerão. Todos os seus planos darão errado. Você será traído e abandonado. E você não pode escapar da morte. A vida é sofrimento. Aceite isso. Mas uma vez que você aceita, depois de aceitar a inevitabilidade do sofrimento, você ainda deve aceitar sua cruz e seguir seu sonho, porque, caso contrário, as coisas só piorarão. Seja um exemplo, seja alguém em quem os outros possam confiar. Não obedeça déspotas, lute pela liberdade de corpo e alma e construa um país em que seus filhos possam ser felizes. '

“É realmente isso que nos ensinam? Essa é realmente a ética que as crianças absorvem na escola? Esses são os tipos de heróis que honramos? Não. Nossa sociedade, como atualmente constituída, suprime qualquer possibilidade de desenvolvimento humano. [Menos de] dez por cento dos russos possuem noventa por cento da riqueza do país. Alguns desses indivíduos ricos são, é claro, cidadãos perfeitamente decentes, mas a maior parte dessa riqueza é acumulada não através de trabalho honesto que beneficia a humanidade, mas, claramente, através da corrupção.

“Uma barreira impenetrável divide nossa sociedade em duas. Todo o dinheiro está concentrado no topo e ninguém lá em cima vai deixar passar. Tudo o que resta na parte inferior - e isso não é exagero - é desespero. Sabendo que eles não têm nada a esperar, que, por mais que tentem, não podem trazer felicidade a si mesmos ou a suas famílias, os homens russos atacam suas esposas ou bebem até a morte ou se enforcam. A Rússia tem a [segunda] maior taxa de suicídio do mundo entre os homens. Como resultado, um terço de todas as famílias russas são mães solteiras com seus filhos. Gostaria de saber: É assim que estamos protegendo a instituição da família?

“Miron Fyodorov [um artista de rap que se apresenta sob o nome Oxxxymiron], que participou de muitas das minhas audiências na corte, observou que o álcool é mais barato que um livro em russo. O estado está pressionando os russos a fazer uma escolha entre responsabilidade e irresponsabilidade, a favor deste último.

"Agora eu gostaria de falar sobre amor. O amor é impossível na falta de confiança. Confiança real é formada por ação comum. Ação comum é uma raridade em um país onde poucas pessoas se sentem responsáveis. E onde a ação comum ocorre, os guardiões do estado imediatamente a vêem como uma ameaça. Não importa o que você faz - esteja ajudando os presos, defendendo os direitos humanos, lutando pelo meio ambiente - mais cedo ou mais tarde você será considerado um 'agente estrangeiro' ou será simplesmente trancafiado. A mensagem do estado é clara: "Volte para a sua toca e não participe de uma ação comum. Se virmos mais de duas pessoas juntas na rua, prenderemos você por protestar. Se você trabalhar em conjunto em questões sociais, atribuiremos a você o status de "agente estrangeiro". De onde vem a confiança em um país como esse - e onde o amor pode crescer? Não estou falando de amor romântico, mas do amor da humanidade.

“A única política social que o estado russo segue consistentemente é a política de atomização. O estado nos desumaniza nos olhos um do outro. Aos olhos do estado, paramos de ser humanos há muito tempo. Caso contrário, por que trataria seus cidadãos do jeito que é? Por que pontua seu tratamento das pessoas através de espancamentos diários, tortura na prisão, inação em face de uma epidemia de HIV, o fechamento de escolas e hospitais, e assim por diante?

"Vamos nos olhar no espelho. Deixamos que isso seja feito conosco e em que nos tornamos? Nós nos tornamos uma nação que desaprendeu responsabilidades. Nós nos tornamos uma nação que desaprendeu o amor. Mais de duzentos anos atrás, Alexander Radishchev [amplamente considerado como o primeiro escritor político russo], enquanto viajava de São Petersburgo a Moscou, escreveu: ‘Olhei em volta de mim e minha alma foi ferida pelo sofrimento humano. Eu então olhei dentro de mim e vi que os problemas do homem vinham do próprio homem. 'Onde estão esses tipos de pessoas hoje? Onde estão as pessoas cujos corações doem tanto pelo que está acontecendo em nosso país? Por que quase nenhuma pessoa assim restou?

“Acontece que a única instituição tradicional que o Estado russo realmente respeita e protege é a instituição da autocracia. A autocracia visa destruir qualquer pessoa que realmente queira trabalhar em benefício da pátria, que não tenha medo de amar e assumir responsabilidades. Como resultado, nossos cidadãos sofredores tiveram que aprender que a iniciativa será punida, que o chefe está sempre certo apenas porque ele é o chefe, que a felicidade pode estar ao seu alcance - mas não para eles. E tendo aprendido isso, eles gradualmente começaram a desaparecer. Segundo a autoridade estatística do estado, os russos estão desaparecendo lentamente, à taxa de quatrocentas mil pessoas por ano. [As mortes excederam os nascimentos em quase duzentos mil nos primeiros seis meses de 2019.] Você não pode ver as pessoas por trás das estatísticas. Mas tente vê-los! Estas são as pessoas que se bebem até a morte por desamparo, as pessoas morrendo de frio em hospitais sem aquecimento, as pessoas assassinadas por outros e as que se matam. Essas são pessoas. Pessoas como você e eu.

"A essa altura, provavelmente já está claro por que fiz o que fiz. Eu realmente quero ver essas duas qualidades - responsabilidade e amor - em meus concidadãos. Responsabilidade por si mesmo, pelos vizinhos e pelo país. Este meu desejo, Meritíssimo, é outra razão pela qual eu não poderia ter chamado por violência. A violência gera impunidade, o que gera irresponsabilidade. Da mesma forma, a violência não suporta amor. Ainda assim, apesar de todos os obstáculos, não tenho dúvidas de que meu desejo se realizará. Estou olhando para o futuro, além do horizonte de anos, e vejo uma Rússia cheia de pessoas responsáveis ​​e amorosas. Será um lugar verdadeiramente feliz. Quero que todos imaginem a Rússia assim. E espero que esta imagem possa guiá-lo em seu trabalho, como me levou no meu.

“Concluindo, gostaria de afirmar que, se o tribunal decidir que essas palavras são ditas por um criminoso verdadeiramente perigoso, os próximos anos da minha vida serão marcados por privações e adversidades. Mas olho para as pessoas [que foram presas na última onda de prisões de ativistas] e vejo sorrisos em seus rostos. Duas pessoas que conheci brevemente durante a prisão preventiva, Lyosha Minyaylo e Danya Konon, nunca reclamaram. Vou tentar seguir o exemplo deles. Esforçarei-me por ter alegria por ter essa chance - a chance de ser testado em nome de valores que considero importantes. No final, Meritíssimo, quanto mais assustador for o meu futuro, mais amplo será o sorriso com o qual olho para ele. Obrigado."

https://www.newyorker.com/news/our-columnists/a-powerful-statement-of-resistance-from-a-college-student-on-trial-in-moscow
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2019.09.30 17:30 altovaliriano [Segundas de SSM] Perguntas e Respostas em São Petersburgo em Agosto/2017

Ao invés de iniciar a rotina com os "So Speak Martin" (SSM) em ordem cronológica (farei isso na semana que vem, provavelmente), preferi iniciar com o último SSM interessante que li.
Após a 75ª Worldcon em Helsinki, Finlândia, GRRM foi de trem até São Petersburgo e, em 19 de agosto de 2017, participou de um evento público com seus tradutores russos em que respondeu algumas perguntas. O evento não foi televisionada, tampouco há uma transcrição, mas um resumo foi feito no tumblr e o link foi foi arquivado no portal Westeros.
As partes negritadas foram destacadas por mim.
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Hoje eu conheci GRRM e ele realizou uma sessão de 2 horas de perguntas e respostas. Fomos convidados a escrever nossas perguntas em um pedaço de papel que foi colocado em uma caixa, e GRRM e seus tradutores os escolheram aleatoriamente. Havia perguntas tolas e perguntas que ele já havia feito muitas vezes, mas algumas eram boas e tomei nota de tudo o que ele disse.
- Ele foi questionado sobre a influência da história americana em ASOIAF e GRRM disse que não havia. Ele foi influenciado pela história medieval européia, notadamente a história escocesa, que era muito violenta, e não a americana.
- Minha pergunta sobre Daenerys foi escolhida como a terceira (eu tive sorte!), Mas ele se recusou a responder lol… eu perguntei: “Quantos anos Daenerys tinha quando saiu da Casa da porta vermelha e ela ficava perto do Palácio do Senhor do Mar de Braavos?” (agradeço a Butterfly por me sugerir) Não sei por que ele se recusou a responder sobre a idade dela, mas sobre a Casa da porta vermelha, ele disse que haverá mais revelações sobre isso nos próximos livros...
- Ele foi perguntado sobre seus futuros projetos (depois de ASOIAF) duas vezes e disse que se concentra em ASOIAF por enquanto, e que após os principais romances, ele tem de 6 a 8 histórias de Dunk e Egg para escrever.
- Ele foi perguntado onde está Rickon e o que acontecerá com ele (por um leitor que esqueceu uma parte de ADWD, ao que parece). GRRM disse que Rickon aparecerá em TWOW (por que ele respondeu a essa pergunta, mas não a da idade de Daenerys, é algo que não compreendo).
- Houve uma boa pergunta sobre os gêneros dos dragões, mas toda a platéia riu (“Como distinguir um dragão macho de uma fêmea?”. Acho que quem pediu isso foi um leitor de verdade, enquanto que o resto da platéia era mais casual quanto ao conhecimento sobre ASOIAF), então a questão foi um meio descartada por GRRM como sendo uma piada. Ele disse que não é fácil entender o sexo dos dragões, às vezes até os dragões não compreendem isso e que, caso ponha ovos, o dragão é considerado fêmea.
- GRRM disse que ele não lerá nenhum novo capítulo de TWOW. Ele já leu o suficiente deles e, se continuar fazendo isso, metade do livro será lida antes de ser publicado. Acho que não teremos material novo de TWOW até que seja lançado.
- O que o inspirou a criar Ramsay Snow? GRRM disse, e cito, que ele precisava de algo "para morder Theon na bunda". Ramsay foi criado para o enredo de Theon, e ele é apresentado pela primeira vez como prisioneiro e servo e depois sobe para uma posição elevada enquanto Theon se torna prisioneiro e servo. Depois, houve uma pergunta sobre a Casa Bolton em geral (que eles são uma casa muito interessante e misteriosa) e se saberemos mais sobre a história deles. GRRM respondeu que não planeja escrever um livro sobre eles, mas provavelmente em Fogo e Sangue haverá algo.
- “Há rumores de que existem 4 descendentes de Dunk em ASOIAF. Você pode dizer algo sobre isso?” George: “É Possível, possível”.
- Uma pergunta interessante foi: "Por que existem tantos filhos que não são amados por seus pais, como Sam, Jon, Tyrion e Theon?" Eu observei a reação de George com cuidado (eu estava sentada perto dele) e ele não teve problemas com o pressuposição de que Jon Snow faz parte dos "filhos não amados" (obviamente, a dinâmica mencionada é Jon-Eddard, não Rhaegar). Ele acenou com a cabeça e disse que não tinha a citação completa com ele, mas o grande escritor russo Tolstoi disse certa vez que famílias felizes são entendiantes - isso foi seguido por uma grande salva de palmas, porque todo russo conhece essa citação muito bem ( a citação de Tolstoi é: Todas as famílias felizes são iguais; cada família infeliz é infeliz à sua maneira.)
- Ele foi perguntado sobre o equivalente do mundo real aos Outros, e ele respondeu que o mais próximo disso seriam as mudanças climáticas. Ele falou bastante sobre isso e disse que a humanidade precisa se unir para enfrentar esta ameaça e que é urgente.
- “Saberemos mais sobre as origens dos Outros?” Sim.
- “Existem indústrias em ASOIAF?” Não.
- Uma boa foi sobre Sansa - se ela tivesse contado a verdade em Darry, Lady ainda estaria viva? O GRRM disse que é possível - Robert não era um pensador, mas um homem impetuoso, governado por suas emoções, por isso poderia ter dirigido sua raiva a Joffrey, em vez de aos lobos gigantes. Mas isso não era garantido, pois Robert queria manter a paz em seu casamento e poderia ter decidido fazer Cersei feliz com a questão dos lobos gigantes.
- “GRRM acredita no mal absoluto?” Não, não há mal absoluto. Até as piores pessoas da história tinham boas qualidades, as quais, infelizmente, não usavam com frequência, e há “sempre a possibilidade de redenção”.
- A pessoa que escreveu esta pergunta gritou "E o mal absoluto como um conceito, como a morte e o oblívio?", que era um pouco filosófica e o GRRM falou sobre religiões por um tempo, dizendo que todas prometem a vida eterna, mas somente após a morte. Ele então afirmou novamente que não acredita no mal absoluto e disse que explora a noção de "a morte ser um alívio" com a história de Arya entre os Homens sem Rosto em Braavos.
- Ele sempre escreve o livro do ponto de vista de seus personagens, ele se torna esse personagem e vê as coisas ao seu redor como o personagem faria.
- Ele foi convidado a comentar sobre as diferenças entre o livro e os personagens da série de TV, particularmente Daenerys. O GRRM ignorou todos os outros personagens e falou apenas sobre Daenerys - ele disse que a da série é mais velha porque existem leis nos EUA que impedem menores de fazer cenas de sexo, então a decisão foi tomada para envelhecer Daenerys. Fora isso, a da Daenerys dos livros e da série "são muito parecidas" e "Emilia Clarke fez um trabalho fantástico". (Acho que ele não pode realmente dizer coisas negativas sobre a série, não é?)
- “Jorah sairá da friendzone?” (Olhando de soslaio para a pessoa que perguntou isso). GRRM: "Eu não apostaria nisso."
- Aqui vou precisar da sua ajuda para descobrir de quem o GRRM estava falando - ele foi perguntado por que ele matou Ned Stark, e ele disse que já havia respondido muitas vezes sobre por que costuma matar seus personagens principais. Então ele citou um autor chamado “Faulkner” (eu não o conheço, então pesquisei e encontrei esse nome, mas poderia ser “Folkner” ou qualquer outra grafia semelhante) que disse uma vez que “para ser um herói às vezes você precisa morrer". Hmmmm
- Ele foi perguntado sobre "Hodor = Hold the door" e se isso foi planejado desde o início, e o GRRM disse que ele é ótimo em planejar e prenunciar [foreshadow] coisas, e que o mistério do nome Hodor estava com ele desde o livro 1. Infelizmente a série chegou o ultrapassou e chegou a esse enredo antes dele, mas ele espera que chegar logo nisso.
Isso foi basicamente tudo sobre as coisas de ASOIAF. Algumas coisas legais não relacionadas à ASOIAF que ele disse:
- Ele adora gatos (muitos aplausos).
- Em uma pessoa, ele respeita a integridade, a honestidade e ser fiel aos próprios princípios.
- Ele foi questionado sobre a viagem no tempo e disse que era fascinante - ele falou por um tempo sobre o efeito borboleta e do romance Um Som de Trovão, e como pisar em uma borboleta no passado resultou em mudanças dramáticas no presente do protagonista principal, que retorna e vê loucos extremistas de direita em seu país. Ele então fez menção indireta a Trump e disse: "alguém deve ter pisado em uma borboleta" (salva de palmas) (GRRM postou sobre isso em seu Facebook agora).
- Ele adora caviar e “São Petersburgo é uma cidade incrível”, ele gostaria de poder conhecê-la melhor.
- Qual seria a tripulação ideal para Marte? Outra referência a Trump, eu acho, porque o GRRM respondeu "depende se a tripulação planeja voltar". lol (grande salva de palmas).
- O Senhor da Luz, de Roger Zelazny, é um dos seus livros favoritos.
Ok, então é isso :)
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COMENTÁRIOS:
Sobre a Casa da Porta Vermelha, a aparição de Rickon e a origem dos Outros é sempre bom ter citações como essas à mão para refutar teorias de que nunca mais ouviremos falar sobre estes assuntos.
Sobre o número de descendentes de Sor Duncan, o Alto, a citação é muito útil. Felipe Bini escreveu um excelente artigo sobre isso em Gelo & Fogo, mas relatou que foi incapaz de achar a origem do boato para poder melhor fundamentar suas teorias. No momento em que li este SSM, passei-o imediatamente a Felipe. Estou na expectativa de ver que conclusões ele extrairá dessas novas informações.
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2018.11.22 15:01 mestrelucas ACREDITEM ISSO ESTA ACONTECENDO NO r/brasil

Olá, sou o Alisson Bittencourt, da organização política Transição Socialista. Eu e meus camaradas Rafael Padial e Emiliano Augusto vamos responder quaisquer perguntas. Perguntem-nos qualquer coisa!
Olhem agora essas respostas do usuario Alissonbbc
A Transição Socialista luta pela organização dos trabalhadores para defender suas condições de vida, em primeiro lugar seu salários e empregos. Na nossa concepção, é dessa luta intransigente que desabrocha o processo de transição ao socialismo, que é uma necessidade para que as forças produtivas possam voltar a crescer.
No segundo turno das eleições, chamamos voto nulo, por acreditar que tanto um governo Haddad quanto um Bolsonaro tentariam atacar os direitos dos trabalhadores e significariam, embora por motivos diferentes, riscos à liberdade de organização política dos trabalhadores em nosso país.
Mais informações sobre nós podem ser encontradas aqui: http://www.transicao.org/quem-somos/
*Rafael concorreu a Deputado Federal pelo estado de SP, é Bacharel em Letras pela FFLCH-USP, mestre e doutorando em Filosofia pelo IFCH-UNICAMP. Alisson é formado em Ciências Sociais pela USP. Emiliano tem formação em Letras pela USP, onde também realizou seu mestrado.*
Fiquem à vontade para nos fazer qualquer pergunta sobre nossa organização ou o momento político e social do país! Obrigado! :)
Não há socialismo sem liberdade. Temporariamente, o processo de transição ao socialismo pode restringir certas liberdades em nome do predomínio político da maioria trabalhadora. Mas isso seria pontual, porque no início da transição a burguesia terá à disposição armas e forças de comunicação muito maiores que as nossas. Nessa situação, seria estúpido deixar que ela usasse isso livremente contra nós.
Mas isso corresponderia apenas à submissão da ínfima minoria da sociedade à maioria dela. É a inversão do que existe hoje: vivemos, a imensa maioria trabalhadora da humanidade, submetidos a uma minoria improdutiva, cada vez menor e possuidora de mais dinheiro. Não temos verdadeira liberdade por isso, porque temos de vender nossas horas de vida para sobreviver -- isso quando ainda temos a sorte de ter um emprego, quando precisam de nós para valorizar seus capitais e não é arriscado tentar fazer isso.
Veja: o fato de sermos governados por essa minoria faz com que não haja emprego quando haveria necessidade de produzir, simplesmente porque diante da incerteza o capitalista prefere poupar e esperar o vento do mercado melhorar. O que determina a produção não é a nossa necessidade, mas os interesses dessa minoria.
Agora, o que houve na Rússia não deriva disso. Ali, a tomada do poder pelo proletariado foi muito pouco sangrenta, os soldados de fato renderam a maioria das tropas (e parte delas se somou ao Exército insurgente nesse processo). Houve derramamento de sangue apenas nos momentos em que o Exército Branco, burguês, se encastelou em posições já perdidas e massacrou o povo o quanto pôde antes de se render (como em Moscou, onde ocorre o contrário do que em São Petersburgo, por exemplo).
Nós avaliamos que jaz em outro lugar o motivo fundamental da burocratização soviética, assim como dos Estados ditos socialistas que surgiram depois na história. A escassez econômica e o isolamento da Revolução Russa condenaram-na, antes de mais nada.
Depois de uma longa guerra civil que destruiu as forças produtivas do país, a Rússia dependia, em certa medida, do sucesso da revolução em outros países, economicamente mais centrais, para poder reerguer-se mais rapidamente. Na medida em que o proletariado foi derrotado em pontos centrais do globo, foi mais difícil para o socialismo prosperar ali porque ele ficou isolado em meio ao mercado mundial, com uma economia em frangalhos. Foram anos de fome.
Por erros da burocracia, a classe trabalhadora sofreu pesadas derrotas na Inglaterra, na Hungria, na Alemanha, na China... Isso tudo na década de 20, depois da morte de Lenin e de Stálin assumir o partido. Na década de 30, a política criminosa da burocracia soviética dá o trampolim necessário para a ascensão de Hitler ao poder. Ali, só se aprofunda o processo de isolamento, que encontraria contra-tendência apenas no pós-guerra (e que, ainda assim, mostrou-se limitada por não estar baseada em apoio popular, mas sim em controle militar, e não evitou a restauração do capitalismo no antigo bloco dito socialista).
Claro, há ali uma série de combinações, bastante complexas, de péssimas decisões econômicas, políticas, militares ou mesmo humanitárias que vão aprofundando esse isolamento. Mas isso derivava acima de tudo da escassez econômica combinada com o isolamento. Pierre Broué analisa isso muito bem em sua obra. Mas a leitura econômica e politicamente mais precisa sobre isso, que melhor detalha esse processo para compreendê-lo, na minha opinião, está contida no livro A Revolução Traída, de León Trotsky. Se alguém quer entender a fundo de fato o processo de burocratização soviético (e suas raízes econômicas), esse livro é fundamental. É nele, por exemplo, que Trotsky avalia o processo de formação da "casta" burocrática, mostrando como no fundo ele é muito simples: onde tem escassez tem fila e, onde tem fila, brota burocracia. Só o fim da escassez mina a burocracia.
Por fim: sim, acreditamos que seja possível fazer uma revolução socialista sem criar uma nova casta de privilegiados. Para isso, basta não esquecermos que o socialismo apenas pode triunfar globalmente, isto é, dominando pelo menos as forças produtivas centrais do globo. Não existe socialismo em um só país. A classe trabalhadora é uma só e precisa agir como uma só.
O armamento dos trabalhadores é a única verdadeira democracia, como dizia Lenin. E não estamos falando das promessas de Bolsonaro de facilitar a compra de armas caríssimas por poucos abastados que vão conseguir pagar 12 mil reais numa pistola.
Defendemos o armamento em larga escala do trabalhador e que, progressivamente, tarefas de vigilância, organização social e policiamento caibam a comitês de auto-defesa dos trabalhadores. Em 1917, por exemplo, a Revolução Russa foi possível também porque os próprios soldados abriram os depósitos de armas do Exército e as distribuíram para os operários em greve. Assim nasceu o embrião do Exército Vermelho, que um ano depois defenderia as fronteiras do nascente Estado socialista contra poderosos inimigos estrangeiros, potências unificadas que tinham muito dinheiro, mas nenhuma confiança do trabalhador.
Hoje, só a burguesia está armada. Se os dois lados estiverem armados, melhor para a maioria trabalhadora.
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